Terça, 18 Abril 2017 14:47

Cem anos da primeira escavação na Anta da Lapa da Meruje

A 29 de março de 2017 completou-se um século desde as primeiras escavações na Anta da Lapa da Meruje, empreendidas por Amorim Girão, pioneiro da arqueologia vouzelense e descobridor do seu megalitismo. Porém, desde então pouco mais se fez e a sua monografia de 1921, “Antiguidades Pré-Históricas de Lafões”, é ainda hoje a obra maior da arqueologia da região. Os megálitos de Vouzela foram caindo no esquecimento da comunidade científica enquanto o estudo de dólmenes em municípios vizinhos conhecia importantes desenvolvimentos.

O arranque em 2016 de um projeto de investigação arqueológica promovido pela Câmara Municipal de Vouzela tem no estudo daquela importante anta um dos seus grandes objetivos. Construída há seis mil anos, no período neolítico, apresenta um potencial ainda enorme e encerra muitas incógnitas. A sua arquitetura funerária não está bem esclarecida. O corredor parece ter sido acrescentado em época indeterminada e, junto à entrada, o declive mais abrupto da mamoa sugere a existência de um átrio, um espaço exterior onde então se teriam realizado rituais hoje impossíveis de recuperar. Achados similares noutros locais sugerem que aqui se encontrarão vestígios de fogueiras e oferendas às divindades, enquadradas por uma arquitetura própria. Os mortos depositados no interior terão sido acompanhados de diversos objetos, como potes em cerâmica, machados em pedra, arcos e flechas e adornos pessoais feitos em minerais então considerados preciosos. Como num templo, as paredes ostentam representações de símbolos de uma religiosidade entretanto desaparecida cujo estudo abre portas para o conhecimento das mentalidades destas gentes.

Na própria localização da anta, entre o litoral atlântico e o planalto beirão, palco de um dos mais imponentes conjuntos megalíticos nacionais, reside a importância muito singular que o megalitismo vouzelense assume a outra escala: como testemunho de interligação cultural e de passagem de pessoas e bens. O achado em 2016 de pontas de seta em sílex, ao que tudo indica oriundo do Ribatejo, é já um indicador dessas relações longínquas.

A recuperação da Lapa da Meruje para o conhecimento científico e para usufruto cultural dos vouzelenses e de quem nos visita, o que se prevê aconteça no final do projeto, será também valorizar e homenagear a dedicação que o seu primeiro estudioso nutria pelo Saber e pela sua terra.

António Faustino Carvalho

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